já era noite, mas lá fora estava mais claro do que dentro de sua cabeça.
tudo lhe parecia confuso e obscuro, e nada parecia fazer sentido.
angústia.
parecia que a tristeza tinha vontade própria pra aparecer, mas nunca pra ir embora.
era comum ver na televisão médicos explicando as dores musculares normais do crescimento.
mas por que ninguém falava da dor no músculo cardíaco? por que ninguém dizia que era tão difícil deixar de ser criança? por que ninguém dizia que era tão difícil aprender e crescer?
pensava em como as coisas eram simples quando suas preocupações se resumiam a qual carrinho escolher para brincar ou que bolacha do armário de sua vó ia escolher. o único problema era quando roubava os biscoitos favoritos do seu vô – aí a cinta cantava. mas isso naquela época…
hoje, ele não concordava quando diziam que a vida é simples, e que nós que a complicamos.
não, não era ele quem complicava a sua vida. eram os outros, lógico! quem não quer poder fazer as coisas serem mais fáceis?
fáceis… hmmm… simples! gostava das coisas simples. gostava de deitar na grama e ver desenho nas nuvens. gostava de se lambuzar com sorvete, de passar uma tarde falando besteiras, de chorar escondido em um filme água com açúcar, de deitar na grama com uma pessoa especial e de fechar os olhos em alguns momentos e apenas sentir. sentir o vento, sentir o doce aroma da noite, o som dos carros distantes, as conversas das pessoas no parque, a paz em seu interior, e o calor dos beijos e os carinhos. ah, os beijos e os carinhos!
porém, já não era mais capaz de dizer quando foi a última vez que fez todas essas coisas que lhe davam tanto prazer.
culpa dessa vida “moderna”.
conversas pessoais foram trocadas por conferências de amigos virtuais em programas de mensagem instantânea.
trocaram ver uma bela paisagem por uma televisão na sala.
trocaram o sabor puro das refeições por comida congelada.
trocaram as coisas simples da vida por uma vida mecânica.
pensar em tudo que ele poderia ter feito e não fez o corroía por dentro. chorava por todas as palavras que não disse, todas as alegrias que não viveu. chorava por pensar que estava envelhecendo, e que nesse ritmo logo as coisas se tornariam ainda piores e mais rotineiras. pensar em tudo isso lhe abatia, e o travesseiro agüentava mudo as lágrimas que sobravam pra ele.
por que não ensinam nas escolas que ninguém é perfeito, e que nem sempre buscar a perfeição é estar no caminho certo?
por que não ensinam que o amor também fere?
por que só ensinam a força que a Terra exerce sobre cada um, mas não a força que o ódio exerce em cada um?
por que se aprende a calcular a intensidade de tantas coisas inúteis, mas não a medir a intensidade das palavras?
por que não se aprende desde cedo o quanto viver dói?
e naquela noite, onde o travesseiro era o único cúmplice, chorou um choro amargo que ressecou sua pele e seu coração. e ele percebeu que a vida é um eterno aprendizado. é como uma faculdade, existem matérias novas até o último segundo antes da “graduação”. percebeu que é um mero aprendiz, está deixando de engatinhar e começando a andar, tomando seus tombos, e que tombos. aquele mesmo homem do começo, achando que já havia crescido o suficiente, percebeu que a vida “moderna” é a troca do “beat” do coração pelo “bit” da informática.
e finalmente, percebeu que se ser moderno é assim, prefere ser antigo.
inventamos tanta coisa, mas esquecemos dos sentimentos.
ao inferno com as invenções, EU QUERO SENTIR.
peço encarecidamente que vejam esses dois vídeos que eu legendei (caso vcs não saibam, a voz é do Pedro Bial, e estão disponíveis num cd chamado FILTRO SOLAR).
ainda, depois dos vídeos,