o que me fascina

12 05 2009

sua beleza é arisca, arredia aos modismos. ela encanta por um não-sei-quê indefinível… mas que também agride o olhar. eh um tipo raro e não tem habitat definido: vive em catmandu, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para barroquinha. e não deixou o endereço. eh ela, a mulher selvagem.

em quase tudo ela é uma mulher comum: pega metrô lotado, aproveita as promoções, bota o lixo para fora e tem dia que desiste de sair porque se acha um trapo. porém em tudo que faz exala um frescor de liberdade. e também dá arrepios: você tem a impressão que viu uma loba na espreita. você se assusta, olha de novo… e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. mas por um segundo você viu a loba, viu sim. eh a mulher selvagem.

a sociedade tenta mas não pode domesticá-la, ela se esquiva das regras. quando você pensa que capturou, escapole feito água entre os dedos. quando pensa que finalmente a conhece, ela surpreende outra vez. tem a alma livre e só se submete quando quer. por isso escolhe seus parceiros entre os que cultuam a liberdade. e como os reconhece? como toda loba, pelo cheiro, por isso é bom não abusar de perfumes. seu movimento tem graça, o olhar destila uma sensualidade natural… mas, cuidado, não vá passando a mão. ela é um bicho, não esqueça. gosta de afago mas também arranha.

repare que há sempre uma mecha teimosa de cabelo: é o espírito selvagem que sopra em sua alma a refrescante sensação de estar unida à Terra. eh daí que vem sua força e beleza. e sua sabedoria instintiva. sim, ela é sábia pois está em harmonia com os ritmos da Natureza. por isso conhece a si mesma, sabe dos seus ciclos de crescimento e não sabota a própria felicidade. como todo bicho ela respeita seu corpo mas nem sempre resiste às guloseimas. riponga do mato, gabriela brejeira? não necessariamente, a maioria vive na cidade. e há dias paquera aquele pretinho básico da vitrine. e adora dançar em noite de lua. ah, então é uma bruxa… talvez, ela não liga para rótulos. sabe que a imensidão do ser não cabe nas definições.

mulheres gostam de fazer mistério. ela não, ela é o mistério. por uma razão simples: a mulher selvagem sabe que a vida é uma coisa assombrosa e perfeita e viver é o mais sagrado dos rituais. ela sente as estações e se movimenta com os ventos, rindo da chuva e chorando com os rios que morrem. coleciona pedrinhas, fala com plantas e de uma hora para outra quer ficar só, não insista. não, ela não é uma esotérica deslumbrada mas vive se deslumbrando: com as heroínas dos filmes, aquela livraria nova, um presente inesperado… ela se apaixona, sonha acordada e tem insônia por amor. as injustiças do mundo a angustiam mas ela respira fundo e renova sua fé na humanidade. luta todos os dias por seus sonhos, adormece em meio a perguntas sem respostas e desperta com o sussurro das manhãs em seu ouvido, mais um dia perfeito para celebrar o imenso mistério de estar vivo.

ela equilibra em si cultura e natureza, movendo-se bela e poética entre os dois extremos da humana condição. ela é rara, sim, mas não é uma aberração, um desvio evolutivo. pelo contrário: ela é a mais arquetípica e genuína expressão da feminilidade, a eterna celebração do sagrado feminino. ela está aí nas ruas, todos os dias. a mulher selvagem ainda sobrevive em todas as mulheres mas a maioria tem medo e a mantém enjaulada. ela é o que todas as mulheres são, sempre foram, mas a grande maioria esqueceu.

felizmente algumas lembraram. foram incompreendidas, sim, mas lamberam suas feridas e encontraram o caminho de volta à sua própria natureza. esta crônica é uma homenagem a ela, a mulher selvagem, o tipo que fascina os homens que não têm medo do feminino. eles ficam um pouco nervosos, é verdade, quando de repente se vêem frente a frente com um espécime desses. por isso é que às vezes sobem correndo na primeira árvore. mas é normal. depois eles descem, se aproximam desconfiados, trocam os cheiros e aí… bem, aí a Natureza sabe o que faz.

ainda fico intrigado como alguem pode gostar de mulheres domesticadas…


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